Garimpeiros podem levar CORONAVÍRUS à Terra Yanomami e causar genocídio, diz procurador de RR

Ilustrativo
Guerreiros Yanomami cruzam riacho durante um encontro de lideranças na comunidade watoriki, na Terra Indígena Yanomami, em novembro de 2019 — Foto: VICTOR MORIYAMA / ISA

A Terra Yanomami é a maior do Brasil e também a mais vulnerável à Covid-19 na Amazônia. Estima-se que 20 mil garimpeiros estejam infiltrados na região.

Por Fabrício Araújo, G1 RR — Boa Vista

REPLICAÇÃO

A corrida aos garimpos na Terra Yanomani em meio à pandemia do coronavírus pode levar a um terceiro ciclo de genocídio dos povos que vivem no território indígena. A análise é do procurador de justiça de Roraima, Edson Damas, que recebeu denúncias sobre a continuidade de invasão dos garimpeiros no território.

Um estudo elaborado pelo Instituto Socioambiental (Isa) e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que Terra Yanomami é a mais vulnerável ao coronavírus entre as regiões indígenas da Amazônia.

A Terra Yanomami é a maior do Brasil, com mais de 9 mil hectares distribuídos entre os estados de Roraima e Amazonas, a terra abriga 26.780 indígenas. A estimativa é que cerca de 20 mil garimpeiros estejam infiltrados no território. Roraima não possui garimpos legalizados.

“Vemos que quem pode levar mesmo o vírus lá para dentro são os garimpeiros, porque saem da cidade e acabam tendo contato com os indígenas. Eles atraem os índios com comida e bebida. Se esse vírus se espalhar dentro da terra indígena, essa pandemia vai causar um genocídio lá dentro”, afirmou Damas.

Desde março, quando surgiram os primeiros casos de coronavírus em Roraima, a Fundação Nacional do Índio (Funai) limitou o acesso às comunidades indígenas a agentes do órgão e profissionais de atividades essenciais. No entanto, a medida não intimidou os garimpeiros.

“De um ano pra cá, aumentou o número de ocorrências e denuncias que recebemos de lideranças indígenas e das organizações desses povos. Eles relatam que aumentou muito o fluxo de entrada destes garimpeiros, inclusive, neste momento de pandemia”, afirmou o procurador do Ministério Público de Roraima.

O coordenador do programa de Monitoramento do Isa, Antônio Oviedo, afirmou que além da invasão de garimpeiros, as falhas no sistema de Saúde e a falta de políticas públicas específicas agravam a pandemia nas comunidades e deixam os Yanomamis sob ameaça de um genocídio.

A Terra Yanomami fica a 246 km de Boa Vista, onde fica o Hospital Geral de Roraima (HGR), o único do estado. Quanto mais distante dos centros urbanos uma área indígena se encontra, mais vulnerável ela é considerada pela pesquisa.

“No caso de Roraima, essa vulnerabilidade também ocorre muito em função do baixo atendimento à Saúde. A disponibilidade de leitos e respiradores é muito baixa”, aponta Oviedo.

Lideranças dos povos Yanomami e ye’kwana se reúnem em encontro que debateu a presença de garimpeiros no território, em 2019 — Foto: VICTOR MORIYAMA / ISA

Damas acompanha a situação dos povos indígenas de Roraima há décadas e afirmou que este pode ser o terceiro genocídio sofrido pelos Yanomami.

“Em 1968, os Yanomami tiveram um surto de sarampo e se estima que quase 80% da população deles foi dizimada. No final da década 1980, veio a abertura da perimetral Norte, e o contato com não-índios ocasionou em milhares e milhares de indígenas contaminados com sarampo, varíola, febre amarela e outras doenças. Foi terrível.”

Um levantamento do Isa, mostra que 106 indígenas, de diversas etnias, já fora infectados em Roraima e quatro mortes foram registradas pelos distritos sanitários especiais indígenas (DSEI) Leste e Yanomami.

A primeiro morte de indígena causada pela Covid-19 no Brasil, foi o adolescente Yanomami, Alvanei Xirixana, que tinha apenas 15 anos. Ele vivia na região da Comunidade Xirixana, região do município de Alto Alegre, ao norte de Roraima.

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